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A ECONOMIA COLONIAL IMIGRANTE


Excerto do livro: ‘História do Rio Grande do Sul’ de Sandra Jatahy Pesavento; Mercado Aberto, 1984.
 
 

A vinda de imigrantes estrangeiros para o Brasil no século XIX é um movimento que se insere no processo mais amplo da expansão do capitalismo a nível mundial. No plano europeu, o desenvolvimento do capitalismo em países como a Alemanha e a Itália foi capaz de gerar um excedente populacional sem terra e sem trabalho, que se converteu num foco de tensão social intenso. A acumulação de capital, a concentração da propriedade do solo e a emergência da indústria tiveram como contrapartida a expulsão do camponês da terra e a desarticulação do trabalho artesanal. Entretanto, o estágio de desenvolvimento industrial (etapa manufatureira) não se revelava capaz de absorver esta mão-de-obra excedente. Além disso, tais países vinham experimentando conturbações políticas internas que haveriam de resultar no seu processo de unificação. A presença de uma massa populacional excedente em termos de ocupação vinha, de uma forma ou de outra, ameacar a estabilidade interna das nações. Desta maneira, o envio desta massa imigrante para os chamados "países novos" tornou-se um negócio vantajoso, ainda mais que se descortinavam perspectivas de retorno de capitais, pela formação de núcleos de nacionais no exterior que se vinculariam por laços comerciais à pátria de origem.

Do ponto de vista das nações que receberam os fluxos migratórios, como o Brasil, a entrada dos imigrantes possibilitou que, internamente, se desse o processo de transição de mão-de-obra escrava para a mão-de-obra livre.

Em especial, São Paulo, com a sua frente pioneira no oeste, revelou-se área por excelência para atração de mão-de-obra européia.

No que toca à inserçao do Rio Grande do Sul neste processo, é necessário explicitar os interesses do centro cafeicultor com relação a uma província periférica. Há dois momentos fundamentais: o primeiro diz respeito à imigraçao alemã, iniciada em 1824, e o segundo à imigração ita-liana, que se desenvolve a partir de 1875.

Com referência à vinda dos imigrantes alemães, preponderavam, ao que parece, os interesses relacionados com o povoamento e colonização de áreas ainda virgens e com a possibilidade de que núcleos de pequenos proprietários agrícolas pudessem vir a neutralizar, pelo seu peso, o poder da oligarquia regional. Não pode ser desconsiderada, também nesta época, a perspectiva da diversificação da estrutura produtora, contribuindo para o abastecimento interno do país e amenizando o desnível da balança comercial causado pelo grande peso das importações de alimentícios.

Já com referência à vinda dos italianos, o interesse do centro, ao que parece, se prenderia primordiaimente a dois fatores básicos: promover o abastecimento do mercado interno brasileiro gerado pelo complexo cafeeiro e formar no sul núcleos coloniais imigrantes bem sucedidos que pudessem servir como foco de atração à imigração estrangeira para o país. Uma vez chegados no país, muitos imigrantes, que pensavam tornar-se pequenos proprietários, acabavam sendo desviados para o trabalho nas fazendas de café de São Paulo.

O que deve ser considerado, todavia, é que do ponto de vista da oligarquia regional a imigração não atendia os seus interesses nem vinha solucionar seus problemas uma vez que os imigrantes vinham trabalhar para si e não resolver problemas de falta de braços na pecuária.

A partir de 1824, começaram a chegar os imigrantes alemães, estabelecendo-se como pequenos proprietários em terras que, originariamente doadas, passaram depois a ser compradas a longo prazo a partir de 1854. Por outro lado, as propriedades diminuíram de tamanho: de 77 ha em 1824, passaram a 48 ha em 1848.

É possível dizer que, desde a sua chegada até mais ou menos 1840, os imigrantes puderam apenas sobreviver às custas de uma agricultura de subsistência, praticamente sem receber auxílio. Cultivaram variados produtos através da mão-de-obra familiar e agregados e socorreram-se dos vizinhos nas suas necessidades. Prosperaram exatamente aquelas colônias que, melhor localizadas no que diz respeito às possibilidades de escoamento da produção de excedentes, puderam fazer chegar os seus produtos até o centro urbano mais próximo. É de destacar o exemplo de São Leopoldo, que, por ocasião da Revolução Farroupilha, começou a abastecer o mercado de Porto Alegre com o excedente da produção agrícola.

A partir da década de 40 até 1870, é possível apreciar o desenvolvimento de uma agricultura comercial de gêneros de subsistência para a capital da província. Dos anos 70 em diante, a agricultura colonial alemã já atingia uma fase de poder exportar para o centro do país, abastecendo o mercado interno gerado pelo café.

Paralelamente aos gêneros agrícolas exportados (milho, feijão, batata, mandioca, trigo), as colônias especializaram-se também na produção de toucinho e da banha, artigos de alto valor unitário face à precariedade dos transportes da época.

Entretanto, todo este desenvolvimento da agricultura colonial alemã não veio beneficiar diretamente o pequeno proprietário, mas sim aquele que realmente acumulava capital através das atividades de abastecimento do mercado interno: o comerciante.

O comércio realizava-se em etapas, desde a 'picada" aberta na mata ao longo da qual se delimitavam os lotes agrícolas até a venda rural, no entroncamento das picadas. Daí os produtos seguiam até a casa comercial do núcleo (São Leopoldo), sendo, após, levados até o centro do país, Buenos Aires e até mesmo Hamburgo na Alemanha.

O comerciante alemão foi o elemento que se destacou no mundo colonial. Lucrava sobre a produção agrícola mediante a diferença obtida pelos produtos na colônia e em Porto Alegre; lucrava com o transporte das mercadorias da colônia à capital e da capital à colônia; lucrava ainda com as operações financeiras de empréstimos e guarda de dinheiro, o que lhe oportunizava um capital de giro para investir.

É possível observar sua marcha ascensional em termos de acumulação de capital, desde a venda rural até a constituição de grandes casas de comércio de importação e exportação em Porto Alegre. A acumulação de capital ocasionada pelo grande comércio foi responsável por duas alteraçoes básicas: por um lado, a importação de produtos do exterior contribuiu para desestimular um artesanato de base familiar que se fazia ao nível dos núcleos coloniais para suprir as necessidades essenciais. Por outro lado, o surgimento da indústria se liga também à presença da acumulação de capital via comércio.

Antes da década de 80, contudo, a indústria concentrou-se preferencialmente em Rio Grande e Pelotas, visando mais ao abastecimento do mercado nacional do que as necessidades locais.

O comerciante enriquecido diversificou paulatinamente suas atividades, aplicando capital não só na indústria como em empresas de navegação, bancos, companhias de seguros, loteamentos, hotéis.

Dentro de uma realidade onde o poder regional era dominado por latifundiários da pecuária, as possibilidades de atuação política dos imigrantes foram quase nulas. Destacou-se aqui, além da figura do comerciante, a elite cultural alemã. Juntas controlavam as câmaras de vereadores a nível municipal e, a partir de 1881, a deputação estadual. Em 1881, a lei Saraiva estendeu o direito de votar aos acatólicos e aos estrangeiros naturalizados. Os elementos enriquecidos da Colônia alemã atuaram como uma ponte entre a massa de pequenos proprietários e a oligarquia pecuarista. Em troca do apoio à situaçao política vigente, era possível conseguir algum atendimento às necessidades dos imigrantes.

No que diz respeito aos italianos, que ingressaram a partir de 1875, chegaram à provincia em uma situação de desvantagem se comparada com a dos alemães, 50 anos antes.

As melhores terras já se achavam ocupadas e coube aos italianos receber lotes ainda menores (25 ha) na encosta da serra. O lote era vendido a crédito e o prometido subsídio para alimentação que seria concedido por um ano foi cancelado. A única ajuda com que o imigrante italiano contou foi aquela advinda do trabalho remunerado de 15 dias por mês na abertura de estradas.

Os italianos, ao chegarem, já encontraram uma rede de comercializaçao montada pelos alemães à sua espera para o escoamento do que viessem a produzir. Se, de um lado, isto facilitava a comercialização de seus produtos, de outro os tornava submissos ao capital alemão. Além disso, todos os artigos da policultura, que poderiam produzir, teriam de enfrentar a concorrência dos produtos alemães. A saída encontrada pelos novos imigrantes foi a especializaçao de determinadas zonas coloniais italianas num só tipo de artigo: o vinho, que encontrou um amplo mercado de consumo no centro do país, entre a populaçao de origem italiana. De um modo geral, os núcleos italianos ainda se dedicaram ao plantio do milho e à criação de suínos para fabricação de banha.

No conjunto, globalmente, o advento de imigração estrangeira para o Rio Grande do Sul foi capaz de atenuar, a nível de economia provincial, a relativa estagnação que atravessava a pecuária sulina. O progressivo crescimento dos produtos coloniais na pauta das exportaçôes, nas quais continuavam preponderando os tradicionais produtos pecuários, contribuiu para que, na virada do século, o Rio Grande do Sul fosse cognominado de "celeiro do país".