(Excerto de: 'A colonização alemã no Vale do Itajaí-Mirim', de Giralda Seyferth, editora Movimento/SAB, 1974, p.29-33)
"A Colônia de Leopoldina, na Bahia, foi o primeiro núcleo colonial fundado com imigrantes alemães no Brasil, em 1818. A partir desta data, imigrantes alemães entraram em vários Estados brasileiros (Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná), embora sua maior concentração tenha sido nos dois Estados meridionais do país: Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Sob o rótulo de "colonos alemães", englobamos todos os imigrantes de língua alemã, sejam eles provenientes da Alemanha, Áustria ou Polônia. Como área de "colonização alemã" consideramos aquelas regiões do sul do Brasil povoadas predominantemente com imigrantes de origem alemã, embora tenham recebido também colonos de outras origens, inclusive luso-brasileiros. Os imigrantes alemães, que entraram nas Províncias de Santa Catarina e Rio Grande do Sul durante o século XIX, se localizaram nas áreas de florestas, entre o litoral e o planalto, longe das regiões de grandes propriedades luso-brasileiras empenhadas na criação de gado. Estes imigrantes, portanto, ficaram separados dos luso-brasileiros e suas atividades não afetaram em nada as áreas latifundiárias. As regiões colonizadas por alemães se caracterizaram principalmente pelo regime de pequenas propriedades policultoras e pelo fato de permanecerem relativamente isoladas, gozando de uma certa autonomia e realizando um comércio em pequena escala, não especializado, dominado por alguns comerciantes proprietários de pequenas lojas nos principais centros coloniais. Nas duas Províncias citadas, a colonização alemã — no século XIX — acompanhou os vales dos principais rios, desde o curso inferior até quase as nascentes, já no planalto: trata-se dos vales dos rios Itajaí (Santa Catarina) e Sinos, Jacuí, Taquari e Caí (Rio Grande do Sul). A imigração alemã para o Rio Grande do Sul começou em 1824, com a fundação da Colônia de São Leopoldo, no vale do rio dos Sinos. Esta imigração sofreu uma interrupção com a Revolução Farroupilha e se reiniciou muito mais tarde, na década de 1850, quando foi instalada a Colônia de Santa Cruz (1849) e toda uma série de colônias privadas. Em Santa Catarina, os primeiros alemães chegaram em 1828 e foram instalados na Colônia de São Pedro de Alcântara, não muito distante da capital, na estrada que se abria para Lajes. Só duas décadas depois é que começou o grande fluxo de imigrantes alemães para este Estado, com a colonização do vale médio do rio Itajaí e das terras a noroeste do Estado, próximas ao porto de São Francisco do Sul que compunham o dote da Princesa D. Francisca, casada com o Príncipe de Joinville. Da iniciativa privada de Hermann Blumenau, surgiu a Colônia Blumenau, no médio Itajaí-Açu (1850); em seguida, foram fundadas as Colônias de D. Francisca (1851), Itajaí-Brusque (1860) e Ibirama (1899), a primeira nas terras da Princesa D. Francisca, a segunda no médio Itajaí-Mirim e a terceira no alto Itajaí-Açu [1]. A fundação de colônias com imigrantes alemães
no Rio Grande do Sul e Santa Catarina se deve tanto à iniciativa
privada como à iniciativa governamental (seja do Governo Imperial
ou Provincial). Entre as colônias fundadas por iniciativa governamental
estão São Leopoldo, Três Forquilhas e Ijuí,
no Rio Grande do Sul, e Itajaí-Brusque, em Santa Catarina. Blumenau
(depois transformada em colônia oficial a pedido do seu fundador),
D. Francisca (instalada pela Hamburger Kolonisationsverein) e Ibirama (instalada
pela Hanseatische Kolonisationsgesselschaft) são exemplos de iniciativa
privada na área da colonização. As sociedades de colonização
tinham interesse principalmente na venda das terras a longo prazo, que
dava um lucro razoável, acrescentando-se ainda o financiamento da
passagem dos imigrantes e os empréstimos iniciais para permitir
a instalação dos mesmos nos lotes. Iniciativa individual
e idealista como a do Dr. Blumenau é uma exceção à
regra e teria fracassado se não fossem os esforços do mesmo
para transformá-la em colônia oficial. Ao Governo Imperial
interessava povoar uma área de florestas com pequenos proprietários
agricultores e os esforços de colonização se concentraram
nas duas províncias meridionais em virtude da pressão dos
grandes proprietários de café quanto à concessão
de terras a estrangeiros em São Paulo. Sendo o café uma das
principais fontes de divisas para o país, argumentava-se no Senado
que pequenas propriedades, policultoras ou não, encravadas nas áreas
cafeeiras seriam extremamente prejudiciais. Mas havia uma razão
bem mais importante para concentrar grandes contingentes imigratórios
entre o planalto e o litoral do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. É
evidente que não foram os imigrantes que deliberadamente escolheram
essas regiões de floresta para colonizar. Havia uma razão
estratégica para que o Governo Imperial destinasse essas áreas
a colonização: era preciso abrir vias de comunicação
entre o litoral e o planalto e isto só seria viável acompanhando
o vale dos principais rios. Segundo Waibel (1958, p. 211-13), o que interessava
ao governo brasileiro era estabelecer nas áreas de floresta das
províncias meridionais colonos que fossem pequenos proprietários
livres, "que cultivassem as terras de mata com auxílio das respectivas
famílias e que não estivessem interessadas nem no trabalho
escravo, nem na criação de gado". As primeiras colônias
foram estabelecidas em pontos estratégicos entre o planalto e o
litoral do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, a fim de garantir de alguma
forma as vias de penetração. Em Santa Catarina, principalmente,
não havia comunicação entre a capital Desterro e o
planalto e foi com esta finalidade que se deu estímulo à
colonização alemã no vale do I tajaí.
As grandes levas de imigrantes alemães entraram no Brasil
entre 1850 e o final do século, o que pode ser deduzido do grande
número de colônias fundadas nesse período. É
difícil fazer a estatística exata dos imigrantes dessa origem
que chegaram ao Brasil. As informações mais precisas só
existem a partir de 1884: de acordo com estatísticas oficiais, entre
1884 e 1939 entraram no Brasil 170.645 alemães. Eduardo Prado calcula
que entre 1830 e 1884 o número de imigrantes alemães chegou
a ser de 71.247 e no período anterior (isto é, 1818 a 1830)
foi de apenas 6.856 (Cf. Willems, 1946, p. 64-5). Dos cinco milhões
de imigrantes que saíram da Alemanha entre 1824 e a Segunda Guerra
Mundial, o Brasil recebeu uma porcentagem mínima. De acordo com
Willems (op. cit., p. 66), somando os imigrantes de língua alemã
que chegaram nos cinqüenta anos que vão de 1886 a 1936, teríamos
uns 280.000 indivíduos — apenas 7% do total de imigrantes que o
Brasil recebeu neste período. Os dados estatísticos, como
se pode ver pela amostra acima, são muito contraditórios;
o número exato de imigrantes que entrou em cada área de colonização,
mais do que o número global, é praticamente impossível
de ser estipulado pois as estatísticas regionais são muito
incompletas.
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